quinta-feira, 22 de maio de 2014

20. AS LÁGRIMAS, SUAS ESPÉCIES E FRUTOS.


20. AS LÁGRIMAS, SUAS ESPÉCIES E FRUTOS.


20.1 - As lágrimas nascem do coração.

Então Deus disse àquela serva: - Filha querida, queres que eu te fale sobre as lágrimas e seus frutos. Não vou desprezar o teu pedido. 
 Presta bem atenção, que passo a explicar em analogia com os estados da alma descritos acima. 
 Há lágrimas imperfeitas, que se fundamentam no temor servil. Em primeiro lugar, as lágrimas de condenação, próprias dos pecadores; em seguida, as lágrimas de medo, encontradas naqueles que deixam o pecado mortal por medo de castigo e choram; em terceiro lugar, as lágrimas de autoconsolação, derramadas pelas almas livres do pecado mortal que começam a servir-Me. Estas últimas também são imperfeitas, pois imperfeito ainda é o amor de onde procedem. 
 Lágrimas perfeitas são as que procedem do homem que atingiu a perfeição do amor pelo próximo e que me ama desinteressadamente. Unidas a estas últimas estão as lágrimas de prazer, espirituais, versadas em grande suavidade, como direi mais longamente depois. Há, enfim, as lágrimas de fogo, espirituais, concedidas àqueles que desejam chorar e não conseguem. 
 Todas essas lágrimas podem ocorrer numa única pessoa em sua caminhada do temor servil ao amor imperfeito e, depois, do amor perfeito à união. É nessa ordem que passo a falar-te agora. 
 Deves saber que toda lágrima nasce do coração. Nenhum membro corporal é tão sensível aos impulsos do coração como os olhos; se o coração sofre, logo eles o revelam. Também quando o sofrimento do coração é causado pelos pecados, os olhos derramam lágrimas, que são de morte. São lágrimas de quem vive longe de Mim, no amor dissoluto. Como o coração Me ofende, sua dor produz morte, gera lágrimas mortais. A gravidade da culpa será maior ou menor, conforme a desordem no amor. Assim, os pecadores choram lágrimas mortais. Delas falarei ainda 

20.2 - As lágrimas de vida.

§ 1 - Ao reconhecer os próprios pecados, o homem chora por medo de castigo; são lágrimas fundamentadas no apetite sensível e procedem da dor íntima causada pelo temor da pena. Sofrendo assimComeço falando das lágrimas que produzem a vida. 
 o coração, os olhos choram. 

§ 2 - Com a prática das virtudes, a pessoa vai perdendo esse medo. Vê que o medo, em si, não lhe concede a vida eterna - como já ficou dito ao se tratar do segundo estado da alma. Esforça-se, pois, em conhecer-se e conhecer-Me. Aos poucos vai aumentando sua esperança na Minha misericórdia. Arrependimento e esperança alternam-se. Então os olhos choram, com lágrimas a brotar da fonte do coração. Tais lágrimas freqüentemente ainda são de ordem sensível, pois o amor continua imperfeito. Se Me perguntares por que razão, respondo: porque sua raiz é o egoísmo. Não é mais um amor puramente sensível, já superado; é espiritual, mas apegado às consolações espirituais, de cuja imperfeição te falei longamente, ou apegado a alguma criatura. As consolações podem desaparecer por motivos internos ou externos; internos, quando cessa algum conforto concedido por Mim; externos, quando, por exemplo, morre uma pessoa amiga. Desaparecem igualmente pela presença de tentações e dificuldades. Em todos esses casos, a pessoa sofre e o coração, ressentido, chora. 
Será um choro de autocompaixão, causado pelo egoísmo. A vontade própria ainda não morreu; são lágrimas sensíveis de autocompaixão espiritual. 

§ 3 - Prosseguindo na prática das virtudes e em maior autoconhecimento, a pessoa começa a desprezar-se, a tomar consciência amorosamente dos Meus favores, a unir-se a Mim, a conformar-se à Minha vontade. 
Sente, então, alegria e compaixão: alegria interior produzida pela caridade e compaixão pelos outros. Já Me ocupei do assunto ao tratar: do terceiro estado. 
O coração acompanha e os olhos derramam lágrimas por Mim e pelo próximo. Sente tristeza a pessoa ante as ofensas cometidas contra Mim e o prejuízo dos ofensores; já não pensa em si mesma; preocupa-se em louvar-Me, deseja sofrer à semelhança do Cordeiro humilde, paciente e imaculado, do qual fiz uma ponte na maneira explicada.

§ 4 - Ao percorrer a ponte-mensagem do meu Filho, a alma passa pela porta que é Cristo (Jo 10,7). 

Repleta da verdadeira paciência, dispõe-se a tolerar todas as dificuldades que eu Lhe enviar. Aceita-as com virilidade, sem preferências, do modo que vierem. Mais ainda! Como já afirmei, não apenas sofre com paciência, mas com alegria. Considera uma honra padecer por Minha causa; deseja mesmo sofrer. Por tais caminhos, alcança uma satisfação e paz de espírito tais, que as palavras não conseguem exprimir. Vivendo a mensagem do Meu Filho, o homem fixa o pensamento em Mim, conhece-Me, ama-Me; nas pegadas do pensamento que contempla a natureza divina unida à humana em Cristo, a vontade saboreia Minha divindade, repousa em Mim, oceano de paz. No amor, permanece unida a Mim. Mas de tudo isso já tratei ao ocupar-Me do quarto estado da alma. Pois bem, ao experimentar Minha divindade, os olhos derramam lágrimas de suavidade, verdadeiro alimento que nutre a alma na paciência. Qual perfume, estas lágrimas exalam odor de grande suavidade. Como é feliz, filha querida, o homem que ultrapassou o mar proceloso do pecado e chegou ao oceano da paz, o homem que encheu seu coração com a minha divindade. Qual aqueduto, os olhos satisfarão o coração derramando lágrimas. Este é o último estado, no qual o homem é ao mesmo tempo feliz e sofredor. 
 Feliz por achar-se unido a Mim, gozando do amor divino; sofredor ao ver que Me ofendem. Age de tal forma por causa do autoconhecimento; foi conhecendo-se e conhecendo-me, que chegou a tal estado. 
 Este estado de união, fonte das lágrimas de suavidade, não é prejudicado pelo conhecimento de si, proveniente do amor ao próximo, donde recebeu a lágrima do perdão amoroso de Deus e a tristeza pelos pecados alheios; quando chorou com os que choram e sorriu com os que sorriem (Rm 12,15). Estes últimos são as pessoas que vivem no amor; o perfeitíssimo alegra-se ao vê-los dar-Me glória e louvor. Estas segundas lágrimas do terceiro estado perfeito, são as "lágrimas de união" do quarto estado. Estes dois estados (terceiro e quarto) se completam mutuamente. Se o último pranto, causador da união com Deus, não incluísse o terceiro estado - de amor pelos homens - nem seria perfeito. Necessariamente um estado inclui o outro. Em caso contrário, cair-se-ia na presunção pela sutil preocupação da própria fama; das alturas, o homem cairia para a antiga situação de pecado. 
 Diante desse perigo, ocorre amar o próximo sempre com autêntico autoconhecimento; esse esforço aumentará a consciência do meu amor por si mesmo. A caridade para com o próximo deriva desse amor. Com o mesmo amor que se sente amado, o perfeitíssimo ama o outro; percebendo qual é o objetivo do meu amor, ama-o também. Num segundo instante a alma compreende sua incapacidade de ser-me útil, retribuindo-Me o puro amor ("Puro amor", para Catarina, é amar sem ser amado antes, coisa impossível de realizar-se para com Deus, que desde sempre nos amou.) que de Mim recebe. Reage, amando-Me naquele "meio" que vos dei, o próximo; nele todas as virtudes são praticadas. Todas as qualidades que vos dei, destinam-se ao benefício dos outros, em geral e em particular. É vossa obrigação amar com o mesmo puro amor que eu Vos amo. Não sois capazes de praticá-lo para comigo, já que Vos amei antes de ser por vós amado. Meu amor não tem justificação; amo antes. Foi tal dileção que levou a criar-vos a Minha imagem e semelhança. Sim, amor igual não podeis manifestar relativamente a Mim; praticai-o para com os homens. Amando-os sem serdes amados, amando-os sem interesses espirituais e materiais; amando-os unicamente para o louvor do Meu nome; amando-os porque são amados por Mim. É desse modo que cumprireis o mandamento de "amar-Me sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos".
 A tais alturas não se chega sem atingir o estado de união, que segue o terceiro. Mas seria impossível conservar tal união Comigo, se se abandona aquele amor das lágrimas do terceiro estado, da mesma forma que não é possível cumprir o mandamento de amar-Me sem cumprir o mandamento de amar o próximo. Eles, (os dois amores) são os dois pés que levam a vivência dos mandamentos e dos conselhos dados por Meu Filho crucificado. Estes dois estados (terceiro e quarto) reduzem-se a um e nutrem o homem na prática das virtudes e na união Comigo. Realmente, não se trata de um novo estado; é o terceiro que se aperfeiçoa em novas, numerosas e admiráveis elevações do espírito, conforme expliquei. Dá-se uma compreensão da verdade que, embora realizada na terra, parece celeste. Em tal união, a sensualidade é dominada e a vontade própria morre.
 Como é agradável essa união para quem a desfruta; ao experimentá-la, o homem conhece Meus segredos e chega mesmo a profetizar acontecimentos futuros. São coisas que dependem de Mim, e a pessoa interessada não deve dar-lhes grande valor. Explico-Me: valorize, sim, o que realizo; mas evite comprazer-se por apego pessoal. Que a pessoa se julgue indigna de qualquer sossego e tranqüilidade espirituais. A fim de nutrir sua alma, não se julgue um perfeitíssimo, mas desça ao vale do autoconhecimento. Esta volta ao conhecimento de si é uma graça, destinada a iluminar a alma e fazê-la progredir. Durante esta vida, ninguém é tão perfeito que não possa aperfeiçoar-se no amor. Somente meu Filho, que é vossa cabeça (l Cor 11,3), não podia progredir na perfeição, pois Eu e Ele somos um. Por causa da união com a natureza divina, Sua alma era compreensora. (No sentido de que gozava a visão beatífica)
 Vós, ainda peregrinos, sempre podeis crescer. Não que atinjais um estado ulterior, pois o estado de união é o último. Por Minha graça podeis aperfeiçoá-lo segundo vosso desejo. 

20.3 - As lágrimas e as fases da vida espiritual.

Conforme teu pedido, expliquei-te as espécies de lágrimas com suas características. 
 As primeiras são próprias das pessoas que vivem em pecado mortal. As lágrimas brotam do coração; como aqui a fonte está corrompida, o pranto é pecaminoso e mau, bem como todas as demais atividades. 
 As segundas lágrimas pertencem àqueles que começam a ter consciência dos próprios males e temem os castigos consequentes. Constitui o comum início de conversão, misericordiosamente concedido por Mim aos homens fracos e desorientados que vão se afogando pelo rio do pecado e desprezando a mensagem do Meu Filho. Infelizmente são numerosíssimos os pecadores que conscientes, sem nenhum temor, continuam no pecado. Alguns repentinamente sentem grande descontentamento de si mesmos e passam a considerarem-se dignos de castigos; outros, arrependem-se por terem Me ofendido e com bonomia se põem a servir-Me. De todos eles, certamente têm maior possibilidade de atingir a perfeição aqueles que se convertem com grande ardor; mas esforçando-se todos o conseguirão. Os primeiros terão de preocupar-se em não ficar no temor servil; os segundos, em não cair na tibieza. Trata-se de um acordar geral à santidade. As terceiras lágrimas estão nas pessoas que superaram o temor servil e atingiram o amor e a esperança. 
 Percebem que lhes perdoei, sentem favores e consolações. Para concordar com o coração, choram. Como são imperfeitas, conforme expliquei, trata-se de um pranto ao mesmo tempo sensível e espiritual. 
 As quartas lágrimas acontecem com a prática das virtudes. Crescendo o desejo da alma, a pessoa se une e se conforma à Minha vontade; quer o que Eu quero, ama profundamente o próximo. É um pranto de amor por Mim e de dor pelos pecados e prejuízos sofridos pelo próximo. 
 As quintas lágrimas, próprias da última perfeição, completam as anteriores. Em união com a verdade eterna, estes progridem muito no desejo santo. 
 Por esse motivo, o demônio os teme e não consegue prejudicar-lhes a alma, seja com ofensas, pois são pacientes na caridade, seja com atrativos espirituais e materiais, por eles humildemente desprezados. 
 Na verdade, o demônio não dorme jamais. Nisto ele até vos dá lições, vós que sois negligentes e dormis no tempo da messe. 
 Mas sua vigilância não consegue prejudicar as pessoas que se acham no estado de união, pois ele não tolera o ardor da caridade e a união da alma Comigo. Quem vive em Mim, não pode ser enganado. O diabo evita os perfeitíssimos como o mosquito se afasta da panela que ferve, por medo do calor. Quando a panela se acha fria, o mosquito se engana e cai dentro, encontrando às vezes mais calor do que percebia. O mesmo acontece com os homens. Antes que eles cheguem à perfeição, o demônio os julga frios e atormenta com muitas tentações. Mas se neles houver um pouquinho de entendimento, de fervor e de desprezo pelo pecado, a vontade não consentirá. Alegrem-se aqueles que sofrem; esse é o caminho para se ir até o estado de união.
 Já afirmei que o meio de se conquistar a perfeição está no conhecer-se e no conhecer-Me. Ora, se eu estiver na alma, não há ocasião mais oportuna para conhecer-se do que no tempo das contradições. Em que sentido? Vou explicar. 
 Nas dificuldades, o homem tem mais consciência das próprias forças; compreende que somente conseguirá resistir e libertar-se das tentações se sua vontade for reta; vê que de si mesmo nada é, pois em caso contrário afastaria as tentações indesejáveis. O autoconhecimento, portanto, conduz à humildade e faz recorrer a Mim, Deus eterno, mediante a fé. A pessoa compreende que somente Eu dou a vontade reta, que não consente nas tentações e evita as insinuações más. 
 Estais certos quando procurais vos fortalecer mediante a mensagem do Meu Filho, o amoroso Verbo encarnado, durante as provações, sofrimentos, adversidades e tentações. Tal atitude aumenta vossa virtude e vos ajuda a chegar à perfeição. 

20.4 - As lágrimas de fogo.

Falei sobre as lágrimas imperfeitas e perfeitas, dizendo que brotam do coração. Qualquer que seja o motivo pelo qual se chore, é do coração que todas as lágrimas nascem. Neste sentido, indistintamente podem ser chamadas "lágrimas cordiais". A diferença entre elas encontra-se na qualidade do amor, bom ou mau, perfeito ou imperfeito. Falta-Me responder sobre o caso daqueles que, desejosos de possuir a perfeição das lágrimas, não conseguem chorar. Existe alguma lágrima que não saia dos olhos? 
 Sim, existe um pranto de fogo, procedente do desejo santo e que faz consumar-se no amor por Mim. Há pessoas que gostariam de chorar na renúncia de si mesmas e no desejo de salvar os outros, mas não conseguem. Relativamente a tais pessoas, afirmo que já possuem a lágrima de fogo, com que chora o Espírito Santo. Sem lágrimas exteriores, elas Me oferecem as aspirações da vontade que deseja chorar. Aliás, se prestares atenção, verás que o Espírito Santo chora em cada servidor Meu que possui o desejo santo e faz orações contínuas e humildes na Minha presença. Ao que parece, foi quanto pretendia afirmar o glorioso apóstolo Paulo, ao dizer que o Espírito Santo chora em Mim "com gemidos inenarráveis" (Rm 8,26), a vosso favor. 
 O fruto da lágrima de fogo não é menor que o das demais. Muitas vezes, até maior, dependendo da intensidade do amor. Ninguém deve perturbar-se, pois, e julgar-se distante de Mim, só porque não derrama as lágrimas que deseja. Ao desejar lágrimas, ocorre conformar-se à Minha vontade, humilhar-se diante do "sim" e do "não" por Mim pronunciados. Às vezes, deixo uma pessoa sem lágrimas, a fim de que permaneça numa atitude humilde, em oração contínua, desejosa de chegar a Mim. Almas existem que, se conseguissem o que almejam, nem tirariam proveito; sentir-se-iam satisfeitas com a obtenção das lágrimas desejadas e cairiam no egoísmo. É para vosso crescimento que não dou lágrimas exteriores, mas unicamente as do espírito, as do coração, inflamadas na chama da divina caridade. Em todo estado de vida e ocasião, tais pessoas podem agradar-Me. A menos que seu espírito se afaste de Mim por falta de fé e amor. Sou o médico, vós sois os doentes; dou a todos o que é necessário para a salvação e o crescimento de vossas almas. 

20.5 - As lágrimas são infinitas.

Conforme acabo de explicar, filha querida, essa é a doutrina sobre as cinco lágrimas. Afoga-te, pois, no sangue de Cristo crucificado, o Cordeiro humilde, sofredor e puro. Esforça-te por crescer nas virtudes, aumenta em ti a chama da Minha caridade. Os cinco tipos de lágrimas são como que canais: quatro deles derramam infinitas espécies de lágrimas, as quais produzem a vida se forem usadas de acordo com a virtude. Infinitas, repito, não no sentido de que tenhais de chorar sem fim nesta vida, mas relativamente ao desejo da alma. Já afirmei que a lágrima brota do coração. É ele que a recolhe no desejo santo e oferece aos olhos. 
 Como a madeira verde atirada ao fogo; por causa do calor, sua umidade ferve, geme. Com a madeira seca não acontece assim. Igualmente sucede com o coração, quando a graça divina o renova, destruindo a sequidão do egoísmo que enrijece a alma. Amor e lágrimas unem-se no desejo santo. Mas este último, durante esta vida, não tem limites. Quanto mais o homem ama menos acredita estar amando. Dessa forma: o desejo ulterior de amar provoca o pranto. 
 Quando a alma se separa do corpo e chega até Mim, seu fim último, não deixa o desejo santo; continua a querer-Me e a amar o próximo. A caridade penetrou em si como rainha, levando consigo o merecimento de todas as virtudes. Como já disse, cessa todo sofrimento; ao desejar-Me, a alma Me possui, sem temor de vir a perder o que tanto sonhara. Todavia suas aspirações crescem: ao desejar, é atendida; e ao ser atendida deseja mais, sem ameaça de qualquer fastio. Nem sofre ao desejar ainda. A perfeição é total. 
 É desse modo que vosso desejo é infinito. Nem poderia ser diferentemente. Se Me servísseis apenas com atitudes finitas, nenhuma virtude vossa alcançaria a vida. Sou o Deus infinito e quero serviço infinito de vossa parte. Mas de infinito só tendes o desejo da alma. Por isso dizia antes que as lágrimas são infinitas; infinitas, por estarem associadas ao desejo santo, infinito.
 Depois da morte, a lágrima sensível não acompanha o homem. Mas ele leva consigo os merecimentos do pranto terreno e os consome. Sucede tal como a água que se atira numa fornalha; ela não fica de lado, mas é pelo fogo absorvida e vaporizada. Sim, é quanto acontece com o homem que chega ao céu, para experimentar o fogo da caridade divina, cheio de amor na união Comigo e o próximo, causa de suas lágrimas. Ele não pára de Me oferecer suas aspirações, felizes e lacrimosas; só que não serão mais lágrimas dos olhos, mas lágrimas de fogo do Espírito Santo. 

20.6 - Frutos das cinco lágrimas.

Compreendeste agora como as lágrimas são infinitas. Mesmo durante esta vida há tantas maneiras de chorar no estado da união, que tua língua é insuficiente para declará-las. Depois de explicar-te como são as lágrimas nos quatro estados da vida espiritual, falta-Me discorrer sobre os frutos que elas e o desejo santo produzem. 

20.6. 1 - Efeitos das lágrimas de condenação.

Começo por aquela lágrima, a que Me referi no começo, a lágrima dos homens que vivem pecaminosamente no mundo, que consideram seu deus as pessoas, as coisas, a própria sensualidade. Essa atitude é para eles a fonte de todos os males na alma e no corpo. 
 Disse acima que as lágrimas nascem do coração. De fato, o coração chora de acordo com seu amor. 
 O pecador, por exemplo, chora quando o coração sofre com a perda de um objeto amado. Suas lágrimas são numerosíssimas, conforme a variedade do amor. Achando-se corrompida a raiz interior, que é o egoísmo, tudo nasce corrompido. É como uma árvore, cujos frutos fossem venenosos, as flores pobres, as folhas manchadas e os ramos voltados para o chão, vergastados pelos ventos. Tal é a árvore interior dos pecadores. Vós, porém, deveis ser árvores de amor. Por amor vos criei, sem amor não podeis viver. O homem virtuoso planta sua árvore no vale da humildade; o orgulhoso, na montanha da soberba. Mal plantada, a árvore deste último só produz frutos mortais. 

§ 1 - As más ações 

Frutos desta árvore são as más ações, carregadas de veneno por muitos e diferentes pecados. Mesmo quando o pecador pratica uma boa ação, não merece para a vida eterna, uma vez que a raiz do egoísmo prejudica tudo. Sua alma, em pecado mortal, não possui a graça. 
 Mesmo assim, o homem pecador não deve deixar de praticar o bem, pois toda boa obra terá sua recompensa. A boa ação praticada em pecado mortal não merece o céu, mas é paga por Minha justiça. Às vezes, darei bens materiais; outras vezes, como já disse antes ao tratar deste assunto, dou uma vida mais longa para que possa o pecador emendar-se; outras ainda, concedo a vida da graça pelos merecimentos de algum Meu servidor. Foi o que fiz no glorioso apóstolo Paulo, que abandonou a infidelidade e as perseguições ao cristianismo devido às preces de santo Estêvão (At 7,60). Como vês, qualquer que seja seu estado de vida, ninguém deve deixar de fazer o bem. 

§ 2 - Os sentimentos maus 

Dizia que as folhas desta árvore de morte são podres. Referia-Me aos maus sentimentos do coração. Tais sentimentos internos ofendem-Me e levam a pessoa ao ódio e desprezo pelos outros. Qual ladrão, o pecador rouba-Me a honra, para atribuí-la a si mesmo. São flores apodrecidas, causadoras de náusea pelas duas espécies de julgamento que causam. Primeiro, a Meu respeito. O homem pecador pronuncia-se iniquamente sobre Meus ocultos juízos e mistérios; despreza tudo quanto realizei por amor; nega quanto revelei em Meu Filho; destrói os meios por Mim oferecidos para se alcançar a vida. Tais pessoas tudo julgam e condenam em sintonia com seu parecer enfermiço. O egoísmo cegou-lhes a inteligência, vendou o olhar da fé, impediu-lhes de reconhecer a verdade. Segundo, relativamente ao próximo. Uma fonte de numerosos males. Sem autoconhecimento, o infeliz pecador pretende pronunciar-se sobre o segredo íntimo dos outros. Baseado em comportamentos exteriores, julga os sentimentos do coração. Meus servidores julgam sempre retamente, pois fundamentam-se na Minha bondade; os pecadores, sempre mal, alicerçados que estão na maldade. De seus juízos nascem muitas vezes o ódio, homicídios, desprezo pelos demais, distanciamento de Meus servidores devido ao seu amor pela virtude. 

§ 3 - As más palavras 

Aos poucos vão aparecendo as folhas, que são as palavras: os pronunciamentos ofensivos a Mim, ao sangue de Meu Filho, prejudiciais aos outros homens. A preocupação dos pecadores é falar mal, blasfemar contra Minhas obras, murmurar contra todo mundo. Consideram como realidade tudo o que seu julgamento sugere. Pobres infelizes, não sabem que a língua foi feita unicamente para Me louvar, para a confissão dos pecados, para a promoção da virtude na salvação dos homens. 
 Folhas manchadas pela culpa! Tudo isso, porque está sujo o coração donde nascem; cheio de duplicidade e mal. Além de prejudicar o homem com a perda da graça, as palavras suscitam desavenças na vida social. Já ouviste falar que, devido às palavras, aconteceram revoltas nos estados, ruína de cidades, homicídios e muitos outros males. A palavra pronunciada penetra fundo no coração do homem a quem é dirigida, atinge regiões que nenhum punhal alcança. 

§ 4 - Os vícios capitais 

A árvore de morte possui sete galhos, inclinados para a terra, que produzem flores e folhas. São os sete vícios capitais, responsáveis por numerosos e diferentes pecados, todos eles enraizados no egoísmo e no orgulho. Os frutos são as más ações. Esses galhos - os vícios capitais - inclinam-se para a terra, enquanto tendem unicamente para a frágil e desordenada realidade deste mundo. Inclinam-se para nutrirem-se, incansavelmente, da terra. Os pecadores são insaciáveis e insuportáveis a si mesmos, sempre inquietos a procurar justamente o que não os pode saciar. O motivo por que são insaciáveis é o seguinte: Como pecadores, desejam só as realidades finitas, ao passo que eles, no que se refere ao ser, são infinitos, isto é, jamais deixarão de existir. No máximo perderão a vida da graça por causa do pecado mortal. O homem é maior que as realidades criadas, não vice-versa. Somente estará satisfeito, quando atingir um bem superior a si. Como somente Eu sou maior que o homem, disto decorre que somente Eu, Deus eterno, consigo saciá-lo. Separado de Mim pelo pecado, o homem vive perenemente atormentado e sofredor. 

§ 5 - Os vendavais da vida 

Ao sofrimento segue o pranto; sobrevêm então os vendavais que açoitam esta árvore de quem ama a sensualidade como razão da própria vida. Os vendavais são quatro: da prosperidade, da adversidade, do temor servil e do remorso. 
 prosperidade material alimenta o orgulho, a presunção; leva o pecador a valorizar-se excessivamente e a desprezar os outros. Se for patrão, oprimirá o súdito com muitas injustiças. A prosperidade é ainda causa de vaidade pessoal, de impureza do corpo e do espírito, de desejo de fama, e de muitos outros defeitos. Tua linguagem nem seria capaz de enumerá-los. Seria, então, má em si mesma a riqueza? Não, assim como as outras três realidades de que falo. O que está apodrecido é a raiz da árvore, ruína de todo o resto. Eu, autor de todos os acontecimentos, sou imensamente bom! À prosperidade material pode sobrevir o choro, quando o coração, insaciável, não realiza seus desejos; ante essa impotência, o pecador sofre e chora porque as lágrimas, como disse, nascem do coração. 
 Segue-se o vendaval do temor servil. Quando um homem tem medo de perder quanto ama, até sua sombra causa-lhe temor. Por exemplo, o medo de morrer, de perder um dos filhos ou qualquer outra pessoa, o medo de ser humilhado, de decair na posição social, de perder a boa fama, a riqueza. Semelhantes temores não permitem ao homem nem conservar em tranqüilidade os bens que possui desordenadamente. Escravo de suas posses, o pecador vive temendo; e como o pecado é privação, a pessoa termina no nada. 
 Além do medo, os pecadores costumam sofrer adversidades, quais sejam perdas de bens em geral e em particular. Em geral, por ocasião da morte; em particular, pela privação de uma coisa ou outra: saúde, filhos, riquezas, posição social, honras. Tais perdas acontecem quando eu, médico bondoso, julgo proveitoso permiti-ias, da mesma forma como concedera aqueles bens antes. 
 Por terem o coração corrompido, muitos pecadores impacientam-se, sem procurar compreender. Surgem os protestos, a murmuração, o ódio, o desprezo por Mim e pelos outros. Consideram mal aquilo que Eu dera como bem; apenas lhes conta a dor pelo objeto amado. Diante disso, o pecador costuma cair num pranto angustiado e impaciente, que lhe arruína e mata a alma, privando-a a vida da graça; um choro que cega a pessoa, corporal e espiritualmente: que lhe retira toda alegria, toda esperança. Chora o pecador, porque privado daquilo que constituía seu prazer e o objeto de sua afeição, de sua esperança, de sua fé. Além da lágrima, há outras causas desses grandes inconvenientes; são a afeição desordenada e a angústia do coração, donde a lágrima procede. De fato, não é a lágrima exterior que causa a morte espiritual e o sofrimento, mas sim a raiz donde ela nasce, isto é, o egoísmo do coração desregrado. Quando o coração é bom e possui a graça, o pranto também é santo e alcança de Mim a misericórdia. Dei o nome de "lágrima de condenação" a este pranto, porque manifesta que o coração está morto. 
 Disse acima que existe também o vendaval do remorso! Como Sou bondoso, sirvo-Me da prosperidade material para atrair amorosamente os homens; do temor servil, a fim de que orientem o coração para a prática das virtudes; da adversidade, para que o homem tome consciência da fragilidade e incerteza das realidades deste mundo. Acontece, porém, que para alguns todos esses meios não produzem efeito; dado que os amo demais, envio então o remorso da consciência. Quero que confessem seus pecados no sacramento da penitência! Quando se obstinam no mal e recusam tal graça, os pecadores acabam na reprovação. Iludem as reprovações da própria consciência, distraem-se com prazeres ilícitos, ofendem a Mim e ao próximo. Com a raiz da árvore apodrecida, tudo secou e a pessoa recai na tristeza íntima, entre lágrimas e angústias. Não havendo conversão enquanto para isso dispõem da liberdade, tais pessoas passarão do pranto da terra para o choro do inferno. Então o finito se mudará em infinito, pois a causa deste último pranto é o ódio infinito pelo bem, em que se fundamentara o pecador. 
 Os réprobos do inferno, se quisessem, teriam escapado da perdição durante esta vida, através do Meu perdão. Eram livres, mesmo tendo-se dito que seu ódio pelo bem era infinito. A infinitude não se refere à intensidade do amor ou do ódio, mas à duração no tempo. Enquanto estais neste mundo, sois livres de amar ou odiar como quereis; quem encerra esta vida no amor, terá um bem infinito e quem a terminar no ódio, encontrar-se-á num mal interminável, na condenação eterna. Desta já Me ocupei ao tratar daqueles que vão afogando-se pelo rio do pecado. Longe da Minha misericórdia e do amor dos homens, já não poderão querer o bem. 
 Os bem-aventurados, ao contrário, gozam da Minha misericórdia, amam-se mutuamente e têm o vosso amor de caminhantes desta vida. Aliás, foi para que também vós venhais a Mim que vos coloquei no mundo. Para os condenados de nada servem vossas esmolas e boas obras. São membros separados do corpo que eu constituí na caridade. Recusaram obedecer aos santos preceitos da hierarquia, de quem recebeis nesta vida o sangue do Cordeiro imaculado. Condenaram-se, assim, eternamente em choro e ranger de dentes (Mt 8,12), quais mártires do demônio. Ali recebem do demônio os frutos que para si recolheram. Desse modo, as lágrimas de condenação fazem sofrer nesta vida e dão a companhia interminável dos demônios na outra. 

20.6.2 - Efeitos das lágrimas de temor.

Passo a falar dos frutos colhidos por aqueles que, por medo dos castigos, abandonam o pecado para viver em estado de graça. São numerosos os que, pelo temor da pena, param de pecar. É o acordar geral, de que falei. Quais são os efeitos em tais pessoas?
 O medo de ser castigado age sobre o livre arbítrio e este procede à limpeza da casa da alma. Tendo-se purificado (na confissão) o homem sente paz em sua consciência, põe ordem nas suas afeições, abre a inteligência para o autoconhecimento. Antes de tal purificação, a inteligência apenas pensava nos pecados; surgem agora as primeiras consolações espirituais. Livre dos remorsos, a alma espera o alimento das virtudes. Acontece-lhe como para o doente após a cura: volta-lhe o apetite. Tocará à vontade preparar-lhe o alimento espiritual. 

20.6.3 - Efeitos das lágrimas de autocompaixão.

Livre do medo dos castigos, a alma colhe as segundas lágrimas de vida, com as quais busca o amor e a prática das virtudes. Embora ainda seja imperfeita, a pessoa já não teme; como verdade suma, Eu lhe dou consolações e amor. Por causa de tal consolação e amor, ama-Me docemente a Mim e as demais pessoas. A vivência desse amor na alma purificada pelo temor servil infunde numerosas e variadas consolações. Se perseverar, chegará a sentar-se à mesa do Crucificado, passando do medo ao amor. 

20.6.4 - Efeitos das lágrimas de amor.
  
 Ao chegar às terceiras lágrimas de vida, o homem se põe à mesa da santa cruz, nela saboreando o amoroso Verbo encarnado. Meu Filho deseja Minha honra e vossa salvação; por isso, Seu coração foi aberto e se fez vosso alimento. Nesta "mesa" o homem começa a alimentar-se do desejo da Minha glória e da salvação dos homens, bem como a renunciar a si mesmo e ao pecado.
 Que frutos recolhe o homem destas lágrimas do terceiro estado? São os seguintes: grandes forças em dominar a sensualidade, verdadeira humildade, muita paciência. 
 Esta paciência vence toda oposição e liberta o homem dos sofrimentos. Quem faz sofrer é a vontade própria, que é destruída pela renúncia a si mesmo. A paciência domina a sensualidade, que se revolta diante das ofensas, perseguições, ausência de consolações espirituais e sensíveis, tornando o homem sofrido. Com a morte da vontade própria, a pessoa experimenta os frutos da paciência em desejo amoroso e lacrimejante. 
 Um fruto suavíssimo, como és agradável a quem te possui! Como tu Me agradas! Quem te possui é feliz mesmo na amargura. Nas injúrias, vive em paz. Ao navegar por mares procelosos, quando perigosas ventanias erguem terríveis ondas contra a barquinha da alma, tu vais tranqüila e serena sem danos. Minha vontade eterna te protege, pois te revestiu com a couraça da caridade e impede que a água do pecado penetre em ti! 
 Filha querida, a paciência é uma rainha encastelada numa fortaleza de rocha; vence e jamais é vencida. Nunca está sozinha, pois a constância lhe faz companhia! Ela é o cerne da caridade, é o sinal de que alguém possui a veste nupcial do amor. De fato, logo que tal "veste" é rasgada, o homem se torna impaciente. Todas as virtudes podem ser falsificadas, parecendo verdadeiras sem o ser diante de Mim. A paciência, aliás, mostra quando uma virtude é viva e verdadeira, enquanto o homem impaciente manifesta a imperfeição dos seus atos, revelando que ainda não se assentou à mesa de cruz. É junto à cruz que se adquire a paciência; quem se conhece e me conhece, conseguirá praticá-la depois com desejo santo e humildade. O homem paciente nunca deixa de Me honrar e de trabalhar pela salvação dos outros, dedicando a isso o próprio tempo.
 Ó filha querida, a paciência encontrava-se nos mártires, que mediante os sofrimentos salvaram outros; suas mortes foram fonte de vida, ressuscitando mortos e expulsando as trevas do pecado mortal. Na força desta virtude rainha, eles venceram o mundo com seus atrativos; com seus recursos, os poderosos não conseguiram derrotá-los. A paciência é uma lâmpada sobre o candelabro. 
 Tal é o fruto produzido pela "lágrima de amor", na pessoa que conseguiu sentar-se à mesa do Crucificado, cheio de desejo santo e com intolerável dor pelas ofensas cometidas contra Mim, seu Criador. Mas não é uma dor angustiante. A angústia já cessara, quando o amor paciente destruiu o temor servil e o egoísmo, únicos fatores que fazem sofrer. A dor sentida é uma dor que conforta, pois nasce da caridade e é causada pelo conhecimento de pecados contra Mim e de danos sofridos pelos pecadores. É um sentimento que brota do amor e enriquece o homem; algo que alegra, algo que revela Minha presença na graça. 

20.6.5 - Efeitos das lágrimas de união.

Tendo-Me ocupado sobre os frutos das terceiras lágrimas de vida, resta-Me o quarto e último estado, o da união. Este, como já disse, não existe como que separado do anterior. Ambos coexistem, como acontece com o amor pelo próximo e o amor por Mim; um reforça o outro. Neste quarto estado, aumenta tanto a caridade, que o homem não somente suporta as dificuldades pacientemente, mas deseja-as com alegria, como ficou explicado acima. Desejoso de configurar-se a Cristo crucificado, renuncia a toda satisfação pessoal, de qualquer tipo que seja. 
 Fruto desta lágrima de união é a quietude do espírito, uma comunhão contínua Comigo em grande prazer. Qual criança no colo da mãe, com a boca colada ao seio sugando o leite, assim a alma, neste estado, descansa no seio do Meu amor e, pelo desejo santo, alimenta-se do Crucificado pelos Seus exemplos e mensagens. Durante o terceiro estado a alma aprendera que não devia fixar-se unicamente em Mim, Pai eterno, porque em Mim não há sofrimento; que devia imitar Meu Filho, o doce e amoroso Verbo encarnado.
 Vós não deveis viver sem a dor; é tolerando muita dificuldade que atingis o aprimoramento da virtude. Esse aprimoramento é alcançado no Coração de Cristo, sede do amor. É ali que as almas buscam a força da graça, experimentando a divindade. Antes disso, as virtudes não possuem suavidade; ela chega com a união no Meu amor, ou seja, quando o homem deixa de preocupar-se com os próprios interesses, visando apenas Minha glória e salvação alheia. Filha querida, como é agradável e grandioso este estado da alma! Nele o homem se une muito estreitamente ao amor divino. Como está a boca da criança para o seio materno, e o seio materno para o leite que sustenta, assim está a alma para com Cristo crucificado e para Comigo, onde acha o alimento da divindade. Oxalá se entendesse como aqui as faculdades se enriquecem. A memória lembra-se de Mim permanentemente, atenta aos Meus benefícios; mas ela se fixa menos sobre os benefícios, do que no amor com que os dei. De maneira particular a memória considera o dom da criação, pelo qual o homem surgiu do nada à Minha imagem e semelhança. Quando estava no primeiro estado, a consciência de tal favor levara a alma a reconhecer a ingratidão em que vivia e a abandonar o pecado por graça do sangue de Cristo. Em tal sangue Eu vos recriei, Eu vos lavei da lepra do mal. Ao passar para o segundo estado a alma recebera grande consolação no amor, bem como o desgosto pela culpa com que Me ofendera, pois foi por esse motivo que fiz sofrer Meu Filho. Continuando, a memória se lembra da efusão do Espírito Santo, que a iluminara - e ilumina ainda - na verdade. Quando isso aconteceu? Após ter reconhecido os dons divinos concedidos durante o primeiro e segundo estados. É no terceiro que se dá a iluminação completa, mediante a qual vê que por amor criei o homem no intuito de dar-lhe a vida eterna. Revelei-vos tal verdade no sangue de Cristo. Consciente disso tudo, o homem ama-Me, gostando do que Eu gosto, desprezando o que desprezo. Descobre assim no próximo o "meio" para amar. É no coração de Cristo que a memória supera toda imperfeição e enche-se da recordação dos Meus favores. Com a perfeita iluminação, a inteligência perscruta tudo o que a memória retém, conhecendo a verdade. Uma vez superada a cegueira do egoísmo, ela contempla o sol que é Cristo crucificado e O reconhece como Deus e Homem. Por ocasião da união Comigo, recebera uma ulterior iluminação infusa, dom gratuito Meu, que não desprezo os ardentes desejos e esforços da alma. A vontade segue a inteligência, une-se à sabedoria infusa com um amor perfeitíssimo, muito ardente. Se Me perguntassem o que aconteceu numa pessoa assim, eu responderia: tornou-se um outro eu na caridade! 
 Que língua seria capaz de narrar a excelência deste último estado - a união -, e descrever os efeitos produzidos nas três faculdades humanas, inteiramente realizadas? Aqui acontece aquela "unificação" das faculdades por Mim mencionadas ao falar dos três graus (gerais), comentando uma expressão bíblica. Não, a linguagem humana não é capaz de a descrever! Dela falaram os santos doutores, quando a iluminação infusa os fez explicar a Sagrada Escritura. São Tomás de Aquino, por exemplo, adquiriu sua sabedoria mais na oração, no êxtase e na iluminação da mente do que no estudo humano. Foi uma lâmpada por Mim colocada na hierarquia da santa Igreja a dissipar as trevas do erro. São João evangelista, quanta luz recebeu ao reclinar-se sobre o peito de Cristo (Jo 13,25). Com essa luz desde então, e durante muitos anos, pregou o evangelho. E se considerares um por um os santos doutores, todos eles revelaram tal luz, cada um a seu modo. Mas ser-te-ia impossível descrever o sentimento profundo, a suavidade inefável, a perfeita comunhão!
 É a isto que Paulo se referia quando afirmava: "Os olhos não podem ver, nem os ouvidos escutar, nem a mente pensar quão grande prazer e que perfeição estão preparados, no final, para aquele que realmente me serve" (1Cor 2,9). Como é agradável, acima de todo outro prazer, a permanência do homem em Mim pelo amor! A vontade própria já não põe empecilhos, pois se tornou uma coisa Comigo. Essa pessoa espalha seu perfume pelo mundo inteiro, qual efeito de suas orações contínuas e humildes. É o perfume do amor, a clamar pelos irmãos diante de Minha divina majestade na voz do próprio silêncio! 
 São esses os frutos da união nesta vida, entre lágrimas e suores, no último estado da vida espiritual. 
 Se a pessoa perseverar, passará, um dia, dessa união imperfeita como união, mas perfeita quanto à graça, à perfeita união celeste. Enquanto se encontra no corpo, o homem não atinge tudo o que deseja; estará preso a uma "lei perversa", cuja força as virtudes adormecem, mas não destroem. Essa lei poderá até acordar, caso seja retirado o controle que a mantém dormindo. Eis a razão por que disse que a união presente é "imperfeita". Mas é ela que conduz a pessoa à vida eterna, à vida impossível de se perder, como já disse ao falar dos bem-aventurados, junto aos quais o homem gozará da comunhão Comigo na vida sem fim. As almas que forem para o céu, terão a vida eterna; os demais terão a condenação como punição de seu pranto pecaminoso. 
 Os primeiros, dos sofrimentos desta vida passarão à alegria; a vida eterna será a recompensa de suas lágrimas de amor. No céu, como já afirmei, continuarão a oferecer-Me lágrimas de fogo em vosso favor. 
Concluo assim Minhas palavras sobre as lágrimas, suas qualidades e seus efeitos. Umas conduzem os perfeitos ao céu, outras levam os maus à perdição!

19 . CATARINA PEDE EXPLICAÇÕES SOBRE AS LÁGRIMAS

19 . Catarina pede explicações sobre as lágrimas

Então aquela serva viu-se inflamada de grandíssimo desejo, como que embriagada pela união com Deus e por tudo quanto vira e ouvira, dolorosa ante a maldade das pessoas que não reconhecem o próprio benfeitor divino e sua amorosa bondade. Ao mesmo tempo sentia-se alegre na esperança, por causa da promessa divina que lhe ensinara o modo como ela e os demais servidores alcançariam perdão para o mundo. Desejosa de conhecer mais sobre os estados da alma, sobre os quais Deus lhe falara, elevou seu pensamento à verdade suprema. 
 Notara que aqueles estados são percorridos em lágrimas; queria saber quais são as espécies de lágrimas, qual sua natureza, sua origem, suas características. Sabendo que toda verdade das coisas encontra-se em Deus, interrogou-o sobre tudo isso. Nada se conhece em Deus sem a aplicação da inteligência, mas é necessário também o desejo de saber na luz da fé. Ela não se esquecera dos ensinamentos anteriormente dados por Deus e bem saia que não existe outro modo de se instruir sobre as lágrimas, os estados correspondentes e seus frutos. Num ardor imenso, como nunca lhe acontecera antes, sobreelevou-se toda inflamada de amor. Com fé olhou para Deus e nele entendeu o que desejava. A verdade divina manifestou-se a ela e atendeu a seus anseios e pedidos. 


terça-feira, 20 de maio de 2014

Uma carta de São Pio para Annita Rodote

Uma carta de São Pio para Annita Rodote
 Pietrelcina, 25 de julho de 1915
Amada filha de Jesus,
Que Jesus e nossa Mãe sempre sorriam em sua alma, obtendo disso, a partir de seu mais Santo Filho, todos os carismas celestiais!
Estou escrevendo para você por dois motivos: para responder mais algumas perguntas de sua última carta e, para lhe desejar um feliz dia no mais doce Jesus, cheio de todas as mais especiais graças celestiais. Oh! Se Jesus atender minhas orações por você ou, melhor ainda, se ao menos as minhas orações forem dignas de serem atendidas por Jesus! No entanto, aumentá-las-ei cem vezes para vossa consolação e salvação, suplicando a Jesus atendê-las, não para mim, mas através do coração de sua bondade paternal e infinita misericórdia.
A fim de evitar irreverências e imperfeições na casa de Deus, na igreja – que o divino Mestre chama de casa de oração -, exorto-vos no Senhor a praticar o seguinte.
Entre na igreja em silêncio e com grande respeito, considerando-se indigno de aparecer diante da Majestade do Senhor. Entre outras considerações piedosas, lembre-se que nossa alma é o templo de Deus e, como tal, devemos mantê-la pura e sem mácula diante de Deus e seus anjos. Fiquemos envergonhados por termos dado acesso ao diabo e suas armadilhas muitas vezes (com a sua sedução para o mundo, a sua pompa, seu chamado para a carne) por não sermos capazes de manter nossos corações puros e os nossos corpos castos; por termos permitido aos nossos inimigos insinuarem-se em nossos corações, profanando o templo de Deus que nos tornamos através do santo batismo.
Em seguida, pegue água benta e faça o sinal da cruz com cuidado e lentamente.
Assim que você estiver diante de Deus no Santíssimo Sacramento, faça uma genuflexão devotamente. Depois de ter encontrado o seu lugar, ajoelhe-se e renda o tributo de sua presença e devoção a Jesus no Santíssimo Sacramento. Confie todas as suas necessidades a Ele junto com as dos outros. Fale com Ele com abandono filial, dê livre curso ao seu coração e dê-Lhe total liberdade para trabalhar em você como ele achar melhor.
Ao assistir à Santa Missa e as funções sagradas, fique muito composta, quando em pé, ajoelhada e sentada, e realize todos os atos religiosos, com a maior devoção. Seja modesta no seu olhar, não vire a cabeça aqui e ali para ver quem entra e sai. Não ria, por respeito para com este santo lugar e também por respeito para aqueles que estão perto de você. Tente não falar com ninguém, exceto quando a caridade ou a estrita necessidade pedirem isso.
Se você rezar com os outros, diga as palavras da oração nitidamente, observe as pausas e nunca se apresse.
Em suma, comporte-se de tal maneira que todos os presentes sejam edificados, bem como, através de você, sejam instados a glorificar e amar o Pai celestial.
Ao sair da igreja, você deve estar recolhida e calma. Em primeiro lugar peça a permissão de Jesus no Santíssimo Sacramento; peça perdão pelas falhas cometidas em sua presença divina e não O deixe sem pedir e ter recebido a Sua bênção paterna.
Assim que estiver fora da igreja, seja como todo ser seguidor do Nazareno deveria ser. Acima de tudo, seja extremamente modesta em tudo, pois esta é a virtude que, mais do que qualquer outra, revela os sentimentos do coração. Nada representa um objeto mais fielmente ou claramente do que um espelho. Da mesma forma, nada mais amplamente representa as más ou as boas qualidades de uma alma do que a maior ou menor regulação do exterior, como quando alguém parece mais ou menos modesta. Você deve ser modesta em discurso, modesta no riso, modesta no seu porte, modesta ao caminhar. Tudo isso deve ser praticado, não por vaidade, a fim de mostrar a si mesma, nem com hipocrisia a fim de aparecer boa aos olhos dos outros, mas sim, pela força interna da modéstia, que regulamenta o funcionamento exterior do corpo.
Portanto, seja humilde de coração, circunspecta nas palavras, prudente em suas resoluções. Seja sempre econômica em sua fala, assídua na boa leitura, atenta em seu trabalho, modesta em sua conversa. Não seja desagradável com ninguém, mas seja benevolente para com todos e respeitosa para com os mais velhos. Que qualquer olhar sinistro fique longe de você, que nenhuma palavra ousada escape de seus lábios, que você nunca realize qualquer ação indecente ou de alguma forma gratuita; nunca especialmente uma ação gratuita ou um tom de voz petulante.
Em suma deixe que todo seu exterior seja uma imagem vívida da compostura de sua alma.
Sempre mantenha a modéstia do divino Mestre diante de seus olhos, como um exemplo; este Mestre que, segundo as palavras do Apóstolo aos Coríntios, colocou a modéstia de Jesus Cristo em pé de igualdade com a mansidão, que era a sua virtude particular e quase a sua característica: “Agora eu, Paulo, vos rogo, pela mansidão e humildade de Cristo” (2 Coríntios. 10:1), e de acordo com tal modelo perfeito reforme todas as suas operações externas, que devem ser reflexos fiéis revelando os afetos do seu interior.
Nunca se esqueça deste modelo divino, Annita. Tente ver uma certa majestade adorável em sua presença, uma certa agradável autoridade no seu modo de falar, uma certa agradável dignidade no andar, no contemplar, no falar, ao conversar; uma certa doce serenidade do rosto. Imagine aquela extremamente composta e doce expressão com a qual ele chamou a multidão, fazendo com que eles deixassem cidades e castelos, levando-os para as montanhas, as florestas, para a solidão e as praias desertas do mar, esquecendo totalmente da comida, da bebida e de seus deveres domésticos.
Assim, vamos tentar imitar, tanto quanto nos for possível, tais ações modestas e dignas. E vamos fazer o nosso melhor para ser, tanto quanto possível, semelhantes a Ele na terra, a fim de que possamos ser mais perfeitos e mais semelhantes a Ele por toda a eternidade na Jerusalém celeste.
Termino aqui, como eu sou incapaz de continuar, recomendando que você nunca se esqueça de mim diante de Jesus, especialmente durante esses dias de extrema aflição para mim. Espero que a mesma caridade da excelente Francesca para quem você vai ter a gentileza de dar, em meu nome, meus protestos de extremo interesse em vê-la crescer sempre mais no amor divino. Espero que ela me faça a caridade de fazer uma novena de Comunhões pelas minhas intenções.
Não se preocupe se você é incapaz de responder à minha carta no momento. Eu sei de tudo então não se preocupe.
Eu me despeço de você no ósculo santo do Senhor. Eu sou sempre seu servo.
Frei Pio, capuchinho

Traduzido por Andrea Patrícia
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Do volume III de Padre Pio’s Letters, “Correspondence with his Spiritual Daughters (1915-1923)” (Cartas de Padre Pio, “Correspondência com suas filhas espirituais” (1915-1923)
Primeira edição (versão em Inglês), Editor; Edizioni Padre Pio da Pietrelcina, Alessio Parente, OFM Cap., Editor Edizioni Padre Pio Pietrelcina da, Nossa Senhora do Convento dos Capuchinhos Grace, San Giovanni Rotondo, Itália, 1994, Traduzido por Geraldine Nolan, pp 88-92.

sábado, 17 de maio de 2014

http://www.fsspx.com.br/a-proposito-de-uma-reuniao-entre-o-papa-francisco-e-dom-fellay/

http://www.fsspx.com.br/a-proposito-de-uma-reuniao-entre-o-papa-francisco-e-dom-fellay/

A propósito de uma “reunião” entre o Papa Francisco e Dom Fellay

Em 10 de maio de 2014 o site de língua inglesa Rorate Cæli publicou, sob o pseudônimo “Adfero”, uma “informação exclusiva” cujas fontes – dizia-se – não podiam ser divulgadas. Essa “informação exclusiva”, reproduzida por diversos meios, revelava que Dom Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, tinha se reunido com o Papa Francisco. Em 11 de maio, a agência romana I.Media assinalava que os dois assistentes de Dom Fellay, os Padres Niklaus Pfluger e Alain-Marc Nély, teriam assistido à missa privada do Papa.
Os Padres Pfluger e Nély jamais assistiram à missa privada do Papa e os jornalistas que o afirmam teriam muita dificuldade para indicar o dia dessa suposta assistência. Eis aqui os fatos.
Em 13 de dezembro, Dom Fellay e seus assistentes se dirigiram a Roma a pedido da Comissão Ecclesia Dei para uma reunião informal. Ao final desse encontro, Dom Guido Pozzo, secretário da Comissão, convidou seus interlocutores para almoçar no refeitório da Casa Santa Marta, onde se somou Dom Agostinho Di Noia, secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé. Nesse amplo refeitório o Papa almoça diariamente, afastado dos outros comensais.
Dom Pozzo quis apresentar Dom Fellay ao Papa quando este saía do refeitório. Houve uma breve conversa na qual o Papa Francisco disse a Dom Fellay, segundo a fórmula de cortesia habitual, que estava “encantado em conhecê-lo”, ao que Dom Fellay respondeu que rezava muito, e o Papa lhe pediu que rezasse por ele. Tal foi o “encontro” que durou alguns segundos.
Na entrevista que concedeu a Le Rocher (abril-maio 2014), Dom Fellay respondera à pergunta seguinte:Houve alguma aproximação oficial de Roma para retomar contato com Vossa Excelência desde a eleição do Papa Francisco? – “Houve uma aproximação ‘não oficial’ de Roma para retomar contato conosco, mas nada mais, e eu não solicitei qualquer audiência como o fizera logo depois da eleição de Bento XVI. Atualmente para mim as coisas são muito simples: permanecemos como somos. Alguns concluíram a partir dos contatos de 2012 que eu colocava como princípio supremo a necessidade de um reconhecimento canônico. A conservação da fé e de nossa identidade católica tradicional é primordial e continua sendo nosso primeiro princípio”.
(Fonte: FSSPX/MG – DICI de 12/05/14)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

18 . DEUS PAI EXPLICA COMO ATINGIR A PERFEIÇÃO (Cont. 7)

18 . DEUS PAI EXPLICA COMO ATINGIR A PERFEIÇÃO (Cont. 7)

18.5.5 - O exemplo de Paulo.
Quando elevei Paulo ao terceiro céu nas profundezas da Trindade (2Cor 12,2-4), ele teve a experiência do meu poder, recebeu a plenitude do Espírito Santo e apreendeu a mensagem do Verbo encarnado. Como acontece com os bem-aventurados, sua alma uniu-se intimamente a mim. Mas continuava no corpo. Quis fazer dele um vaso de eleição no abismo da Trindade (At 9,15). Como não mais poderia padecer se fosse revestido da minha paternidade, despojei-o de mim mesmo e pus diante do seu espírito o meu Filho crucificado; infundi nele sua mensagem, acorrentei-o no fogo da caridade mediante a clemência do Espírito Santo. Qual vaso reformado, Paulo não opôs resistência ao ser ferido na estrada de Damasco. Apenas perguntou: "Senhor meu, que desejas que eu faça? Haverei de realizar teu desejo" (At 22,10). Respondi colocando Jesus crucificado diante dos seus olhos e revelando-lhe sua mensagem. Iluminado, arrependido e repleto de amor, ele desprezou seus pecados e assumiu a mensagem de Cristo crucificado. De tal forma a estreitou a si que, como ele mesmo diria mais tarde, dela ninguém o separaria: nem a tentação, nem os demônios, nem o aguilhão na carne, para que progredisse na graça e no merecimento. Como havia experimentado a profundeza da Trindade, ocorria humilha-lo. Assim dificuldade ou acontecimento algum o conseguiam demover de Cristo e sua mensagem; pelo contrário, mais o aproximavam. E Paulo, de tal modo os abraçara, que lhes deu sua vida e, revestido de Cristo, retornou a mim, Pai eterno.
Foi desse modo que Paulo fez sua experiência de união no amor, sem a separação da alma com o corpo. Ao voltar a si (do êxtase), revestido de Cristo crucificado, sentia-se imperfeito, comparando com a caridade que vislumbrava em mim e nos santos do céu. Parecia-lhe que o peso do corpo impedia a perfeição do amor e a realização dos desejos próprios do além-morte. Sua memória era débil e incapaz de acolher e recordar naquele grau que acontece aos santos. Vivendo no corpo, sentia a lei perversa que lutava contra o espírito; tal combate não o levava ao pecado, como expliquei naquelas palavras: "Paulo, basta-te a minha graça", mas impedia a suma perfeição de ver a minha essência. Por isso ele exclamava: "Infeliz de mim, quem me livrará deste corpo? Trago nos ombros uma lei perversa, que luta contra o espírito". E tinha razão! Devido à imperfeição do corpo, a memória fica diminuída, a inteligência não consegue ver minha essência, a vontade permanece retida sem experimentar-me - Deus eterno que sou - isenta de dor. Falava com exatidão Paulo ao afirmar que existe no corpo uma lei perversa a lutar contra o espírito. Aliás, essa é a mesma razão por que meus servidores do terceiro e quarto estado, perfeitamente unidos a mim, também clamam desejando libertar-se do corpo. 

18.5.6 - O desejo da morte.

Os perfeitíssimos não temem a morte; até a desejam. Desprezam o próprio corpo, fazem-lhe guerra, renunciam ao natural cuidado com ele; têm pouco amor à vida física e muito amor por mim. Eles suspiram pela morte, dizendo: "Quem me separará deste corpo (Rm 7,24)? "Desejo partir e ir estar com Cristo" (Fl 1,23). Ou então: "A morte é minha aspiração e, a vida, eu a suporto com paciência" (Fl 1,21; Rm 8,23). Sublimada na união, a alma deseja ver-me e glorificar-me. Quando volta a si, readquirindo suas sensações, fica impaciente fora do êxtase, distante da convivência com os santos que me glorificam, em meio a pecadores que tanto me ofendem. A pessoa retorna às sensações corporais, porque antes elas haviam sido arrebatadas no ímpeto do amor, quando o espírito se vê mais unido a mim que ao corpo. Disse que o corpo não aguenta uma união extática contínua. Por esta razão afasto-me da pessoa. Ela não perde a graça; continua a sentir as consolações sensíveis e espirituais, o que não acontecia no segundo e terceiro estados. Agora retiro-me somente quanto à união; mas volto depois com maior intensidade de graça e união, com maior conhecimento da minha verdade, que se revela à pessoa. É justamente quando me afasto para que o corpo volte ao seu normal, que o perfeitíssimo sentirá a impaciência. Ao ver os pecados que me ofendem, sua dor é cruel. Por tal motivo e pelo desejo de rever-me, a vida lhe parece insuportável. Mas como sua vontade se identificou com a minha, conforma-se ao que desejo. Embora suspirando por mim, permanece no corpo ao mesmo tempo alegre e sofredor, porque tal é a minha vontade. Tudo aceita por minha glória e pela salvação dos homens.
Com tal modo de se comportar, em nada se afasta de mim. Inflamados de amor, transformados em Cristo crucificado, correm céleres pela porta-mensagem do meu Filho, alegres nos sofrimento e dificuldades. Equilibram-se neles a alegria e a dor: tanto se rejubilam quanto sofrem! A presença de grandes lutas constitui até um lenitivo para o desejo de morrer. Realmente, muitas vezes a vontade de sofrer mitiga a dor proveniente da espera da morte. Estes, que estão no quarto estado, além de tolerar os sofrimentos com paciência - como ocorria no terceiro estado - alegram-se nas contradições. Se sofrem, ficam contentes; se não sofrem, ficam tristes. Neste último caso, temem que eu os esteja recompensando nesta vida por suas boas obras ou que não me seja agradável o ímpeto de seus desejos. Rejubilam-se quando permito grandes dificuldades, pois acreditam-se participantes dos sofrimentos de Cristo. Caso lhes fosse permitido praticar as virtudes na tranquilidade, não o aceitariam; acham melhor alegrar-se na cruz com Cristo, adquirir as virtudes na luta, do que alcançar o céu por outras formas. Por que razão? Por que se afogaram no sangue e nele acharam o amor, essa chama que procede mim e que arrebata o coração e espírito no sacrifício dos desejos. Eleva-se a inteligência na contemplação da minha divindade, a vontade a segue, alimenta-se de mim, une-se a mim. É o conhecimento infuso, que concedo àqueles que realmente me amam e servem.

18.5.7 - O conhecimento infuso.

 Foi com essa iluminação que Tomás 85 adquiriu grande sabedoria. iluminados por meu Filho, Agostinho, Jerônimo e outros santos doutores compreenderam a verdade nas trevas. Naqueles tempos a Escritura parecia obscurecida; não por deficiência sua, mas pela incapacidade dos leitores, que não a compreendiam. Então eu os enviei como lâmpadas para iluminar os homens de vista curta e inteligência fraca. Nas trevas, eles aplicaram suas inteligências na procura da minha verdade. Vendo seus esforços, eu iluminei-os com a luz sobrenatural e eles compreenderam. O que parecia obscuro, tornou-se claro para todos, cultos e incultos. Cada pessoa recebe tal luz conforme suas aptidões e disposições. Respeito as pessoas. Como acréscimo à luz da razão, a inteligência é iluminada por uma luz infusa, proveniente da graça. Foi com essa segunda luz infusa e sobrenatural que os doutores da Igreja e demais santos conheceram a verdade, transformando a escuridão em claridade.
Como a inteligência é anterior à Escritura, é dela que provém a sabedoria necessária para sua compreensão. Foi tal modo que os santos profetas entenderam e falaram sobre a encarnação e morte de meu Filho; que os apóstolos foram sobrenaturalmente iluminados com a vinda do Espírito Santo em pentecostes; que os evangelistas, doutores, confessores, virgens e mártires acolheram brilhante luz. A seu modo, cada um deles a recebeu de acordo com as necessidades da salvação - pessoal e dos outros -, e da interpretação das Escrituras: os doutores esclareceram a mensagem de Cristo pela sabedoria; os apóstolos pela pregação; os evangelistas, escrevendo-a; os mártires testemunhando, com seu sangue, a luz da fé e a riqueza da paixão de Cristo; as virgens obedecendo. Pela obediência, amor e pureza, estas últimas revelaram a perfeita humildade do meu Filho, que por obediência correu para a terrível morte na cruz.
Toda revelação, contida nos oráculos dos profetas do Antigo Testamento e nos escritos do Novo, for compreendida mediante essa luz infusa, sobrenatural. Sim, também no Novo Testamento a vivência evangélica foi dessa forma revelada aos cristãos. Sendo uma só a fonte, isto é, provindo da mesma iluminação, a Nova Lei não suprimiu a Antiga, mas acrescentou-se a ela. Retirou-lhe a imperfeição. A Antiga fundamentava-se no temor do amor. Em lugar do temor servil, do medo dos castigos, inseriu o amor filial. Disse ele que não viera anular a lei de Moisés. Quando disse: "Eu não vim abrogar a lei, mas levá-la à perfeição" (Mt 5-17), queria significar: "A lei de Moisés é imperfeita; eu a aperfeiçoo no meu sangue. Vou retirar-lhe o temor servil e dar-lhe o que não possui, o amor, o temor filial".
Quem manifesta isso? A luz sobrenatural da graça, algo superior à luz da razão, que é concedida a quem o deseja. Toda claridade proveniente das Sagradas Escrituras sempre procedeu e ainda procede dessa luz. Em sua presença cegam-se os sabichões ignorantes, pois o orgulho e o egoísmo constituem uma nuvem de fumaça que esconde e afasta o saber infuso. Esses tais compreendem a Escritura literalmente, não no seu sentido profundo. Apreciam-lhe a letra após longos estudos, mas não penetram seu espírito. O motivo é este: eles desprezam a luz com que a Bíblia foi escrita e explicada. Maravilham-se mesmo, e põem-se a murmurar quando vêem pessoas sem estudo e rudes, extremamente iluminadas no conhecimento das Escrituras, como se tivessem estudado muito. Na realidade, não há maravilha nisso. Tais pessoas rudes possuem a fonte principal donde brota a sabedoria, enquanto aqueles soberbos, por desprezar a luz descrita acima, ignoram minha bondade e a iluminação infusa pela graça nos meus servidores.
Por esse motivo eu te digo que, nos assuntos da santificação da alma, é melhor aconselhar-se com uma pessoa rude, mas dotada de uma consciência reta e santa, do que com um literato orgulhoso. Cada um dá o que possui. Vivendo no pecado, os literatos orgulhosos apresentam a luz das Escrituras envolta em trevas, ao passo que meus servidores, devido à luz que possuem, falam do que têm, com autêntico desejo da salvação.
Falei-te a respeito de tudo isso, minha filha querida, para mostrar-te como é a perfeição do estado de união.
Nele a inteligência é sublimada pelo fogo do amor e iluminada sobrenaturalmente; como a vontade segue a inteligência, a pessoa me ama. Quanto maior o conhecimento, maior o amor, e vive-versa. Uma coisa alimenta a outra. Com tal luz, a alma chega à visão eterna, quando me conhecerá e gozará em mim. Isso acontece, com expliquei ao tratar da felicidade dos santos, quando a alma separar-se do corpo. Este é um estado de vida extraordinário. Embora sujeito à morte, o homem já vive entre os bem-aventurados. Frequentemente entra em êxtase. Sem saber se está no corpo ou fora dele, a alma experimenta a certeza do céu, seja devido à união que mantém comigo, seja pela morte da vontade própria. Aliás, foi essa "morte" da vontade que possibilitou a união. Livre desse "inferno" que é a vontade própria - certeza de condenação para quem vive segundo a sensualidade - o homem saboreia a vida eterna.

18.6 - Sumário e exortação.

Desta maneira teu espírito compreendeu e o ouvido interior escutou de mim, verdade eterna, como deves agir para utilidade tua e do próximo relativamente à verdadeira mensagem. Inicialmente afirmei (2.2) que é pelo autoconhecimento; não um conhecimento somente de ti mesma, mas também da minha presença em ti. Mediante este duplo conhecimento, ficas humilde, desprezas a ti mesma, descobres o fogo do amor por mim e pelos homens, começas a trabalhar pelos outros ensinando e dando bons exemplos. Em seguida eu te falei ponte, como ela é. Discorri sobre os três degraus nas faculdades da alma (16.1) e expliquei como é impossível conseguir a vida da graça sem percorrer os três degraus "unificando" (16.3) em mim as faculdades. Também falei (18) sobre os três estados da alma, simbolizando-os no corpo de meu Filho. Disse que ele fez do seu corpo uma escada com os pés cravados, o costado aberto, a boca onde está a quietude e a paz. Falei sobre as imperfeições do amor servil e interesseiro, sobre a perfeição do terceiro estado próprio daqueles que atingem a boca de Cristo, após ter percorrido com desejo santo a ponte-mensagem de Cristo crucificado; galgaram os três degraus gerais, unificando as três faculdades da alma e, por conseguinte, todas as sua atividades, em mim, como foi explicado (16.1). Também discorri sobre os três degraus particulares (ou atuais), percorridos na passagem do estado imperfeito ao perfeito. Viste como os perfeitos correm no bem; sentiste a perfeição da alma adornada de virtudes; os enganos pelos quais passa antes de aperfeiçoar-se, caso não pratique o autoconhecimento no momento oportuno. Também falei dos infelizes que se afogam no rio do pecado (14), fora da ponte-mensagem de meu Filho, construída por mim para salvar-vos; como loucos eles preferem envolver-se nas misérias e sujeiras do mundo.
Expliquei tudo isso para aumentar a chama do teu desejo santo, tua compaixão e dor por causa da condenação eterna dos homens; desejo que a caridade te obrigue a abraçar-te comigo em lágrimas e suor. Naquelas lágrimas que brotam da oração humilde e contínua, e que me são oferecidas com ardentíssimo desejo. Quero que além de ti, muitas outras pessoas - ao ouvir tais coisas sejam levados a orar obrigando-me a usar de misericórdia para com o mundo e para com a hierarquia da santa Igreja pela qual tanto suplicas. Como deves recordar, afirmei (2.11) que escutaria vossos pedidos, confortar-vos-ia nas lutas, faria frutificar vossos desejos, enviando pastores bons e santos para a reforma da santa Igreja. Disse (4.4) que não é pela guerra, pela espada e pela crueldade que isso acontecerá, mas com a paz, a tranquilidade, as lágrimas e os suores dos meus servidores. Eis a razão por que vos coloquei a trabalhar por vós mesmos, pelos demais cristãos e pela hierarquia da santa Igreja. Quanto a vós mesmos, deveis praticar as virtudes; quanto aos outros e à hierarquia, dareis bons exemplos, ensinareis, oferecereis orações contínuas e praticareis o bem segundo o modo como expliquei (2.7), já que todo ato bom ou mal se realiza no próximo. Quero que sejais úteis aos outros; tal é a maneira de produzirdes frutos em vossa vinha pessoal.
Não cesseis de oferecer-me o incenso perfumado de vossas preces pela salvação da humanidade! Quero perdoar ao mundo, quero lavar a face da santa Igreja com vossas orações, suores e lágrimas. Mostrei-te minha Esposa na figura de uma jovem com o rosto conspurcado, como que leprosa, por causa dos defeitos da hierarquia e de todos os cristãos. Mas sobre tais pecados falarei depois. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

18 . DEUS PAI EXPLICA COMO ATINGIR A PERFEIÇÃO (Cont. 6)

18 . DEUS PAI EXPLICA COMO ATINGIR A PERFEIÇÃO (Cont. 6)

18.5.4 - A união extática.
Afirmei que os perfeitíssimos jamais perdem o consolo da minha presença. Afasto-me deles, porém, num outro sentido. Dado que a alma, ainda unida ao corpo, não consegue suportar continuamente a união comigo, afasto-me dos perfeitíssimos quanto a tal união, embora permaneça neles pela graça e pelas consolações do espírito. Impulsionado por grandes desejos de amar, o perfeitíssimo pratica as virtudes e caminha célere na mensagem de Cristo crucificado; elevando-se espiritualmente, atinge na caminhada da ponte aquela porta que é Jesus; inebria-se no sangue, arde no fogo da caridade, experimenta a minha própria divindade. Nesse oceano de paz realiza a união. Já não faz nenhum movimento fora de mim. Morando entre mortais, goza da felicidade dos bem-aventurados; no corpo, adquire a leveza dos espíritos angélicos. Frequentemente o corpo se eleva do chão pela força da união; torna-se leve. Seu peso natural permanece, mas a união da alma comigo fica mais profunda do que com o próprio corpo. Dessa forma, a força do espírito humano, unido a mim, eleva o corpo do chão. Fica imóvel, inteiramente arrebatado no anseio da alma. Algumas vezes chega-se a tal ponto - conforme algumas pessoas o disseram - que o corpo morreria, se não lhes fosse dadas forças para sobreviver. Afirmo-te mesmo que o fato de a pessoa não morrer em tal união é um milagre maior do que ressuscitar um morto!
Costumo fazer cessar durante algum tempo esse estado de união. A alma como que retorna ao corpo e este readquire suas sensações. Na realidade, a alma não estivera fora do corpo; a separação acontece unicamente por ocasião da morte. Foram as faculdades que ficaram alienadas devido ao ímpeto do amor: a memória de tudo se esquecera, menos de mim; a inteligência ganhara novas alturas na meditação sobre a minha divindade; a vontade; nas pegadas da inteligência, unira-se ao objeto da inteligência. Durante a união extática, as faculdades fundem-se, imergem-se, inflamam-se em mim, enquanto o corpo perde as sensações. Vendo, a pessoa (no êxtase) nada enxerga; ouvindo, nada escuta; falando, nada diz. A não ser que alguma vez eu permita que fale da abundância do coração, para desafogar-se e glorificar o meu nome. Tocando, a mão não sente; movendo-se, os pés não caminham. Todos os membros ficam como que ligados pela corrente do amor; tal situação dos sentidos é submetida à razão, que os congrega no amor do espírito. Contrariando a própria tendência natural, os perfeitíssimos clamam diante de mim que os leve, que separe a alma do corpo. Dizem como São Paulo: "Infeliz de mim! Quem me afstará deste corpo? Tenho em mim uma lei perversa que combate contra o espírito" (Rm 7,24.23).
Com tais palavras, Paulo não se referia propriamente a uma oposição entre a sensibilidade e o espírito, pois eu o tranquilizara, afirmando-lhe: "Paulo, basta-te a minha graça"(1Cor 12,9). Por que falava daquele modo, então? Por sentir-se retido no corpo, impedido de ter a minha visão até à morte. Seu olhar estava cerceado, impossibilitado de ver a Trindade eterna, na visão dos bem-aventurados, que me glorificam continuamente. Via-se, Paulo, entre os mortais que me ofendem, impedido de contemplar a minha essência.
Realmente Paulo e todos os demais servidores meus vêem-me e experimentam-me no amor da caridade. Isto lhes acontece de diversos modos, conforme o quero. Não vêem, porém, a minha essência. Todo conhecimento concedido durante esta vida mortal não passa de escuridão, comparado com a visão da alma separada do corpo. Esta a razão por que Paulo afirmava que a carne combate a visão do espírito. Queria ele dizer que a lentidão dos sentidos impede minha visão face a face. Parecia-lhe que a vontade não consegue amar quanto deseja, uma vez que todo amor é imperfeito antes de atingir sua plenitude.
 O que foi dito, não significa que se trate de um amor imperfeito quanto à graça e à perfeição da caridade, seja em Paulo como nos meus servidores. Sob tal ponto de vista era um amor perfeito, faltando apenas a saciedade total do céu. Eis o motivo da sua insatisfação. Não sofreria Paulo, se os seus desejos estivessem saciados. Enquanto se acha no corpo, o amor humano não possui inteiramente o objeto amado; por isso, sofre. Quando a alma se separar do corpo, seus desejos se cumprem e o sofrimento cessa. Sim, separada do corpo, a alma sentir-se-á realizada e sem fastio; continuará desejando, sem padecer falta alguma. Então, estará repleta de minha verdade, possuirá quanto deseja: querendo ver-me, terá a visão da minha face; querendo contemplar a minha glória nos anjos e santos, ser-lhe-á mostrada. Terá um conhecimento perfeitíssimo, seja da minha glória nos bem-aventurados, seja em todas as criaturas da terra, pois todos os homens, queiram ou não, rendem-me glória.
A humanidade não me glorifica como deve, não me dedica um amor superior a todo outro amor. Assim mesmo, dela retiro o louvor que me é devido. Refulge nos homens minha misericórdia e minha caridade, pois sou paciente, concedo-lhes tempo de viver, não ordeno à terra que os devore quando pecadores. Pelo contrário, contemporizo, faço o solo produzir frutos, o sol iluminar e aquecer, o firmamento girar. Sou misericordioso para com todos os seres criados para o homem. Condenando o pecado, não privo os homens dos bens criados; concedo-os ao justo e ao pecador. Algumas vezes, dou-os mais a pecador e privo o justo de bens materiais se o considero preparado para isso, na intenção de dar-lhe mais abundantemente os bens do céu.
O amor misericordioso refulge nos meus servidores na hora das perseguições contra eles movidas pelos seguidores do mundo. Tais perseguições são oportunidades para que demonstrem amor e paciência. Ao sofrer, eles me louvam com orações contínuas e humildes; dessa forma, até os perseguidores, mesmo sem querer, rendem-me glória. Nesta vida, os maus fazem crescer a virtude dos bons. Assim como os demônios, no inferno, atuam minha ação justiceira sobre os condenados, os perseguidores deste mundo promovem os bons. Também os demônios o fazem mediante lutas e tentações; ao induzir os mesmos a se ofenderem, a furtarem-se uns aos outros, os demônios pretendem levá-los ao pecado, sobretudo privá-los da caridade. Mas acabam por fortalecer meus servidores, pondo à prova sua paciência, fortaleza e perseverança. Desse modo, até os demônios me glorificam, realizando quanto eu planejara. Criei-os para que me louvassem, para que participassem de meu esplendor. Cheios de orgulho, rebelaram-se e decaíram, foram privados da minha visão. Já que não me dão glória pelo amor, aproveito-os como instrumentos para exercitar meus filhos na prática das virtudes; também como promotores da minha justiça no inferno; e ainda entre os que passam pelas penas do purgatório. Glorificam-me, não como cidadãos do céu - privados que estão da vida eterna - mas como executores da justiça junto aos condenados no inferno e aos que estão no purgatório.
Uma vez separada do corpo, a alma humana compreende que todos, mesmo os demônios, me louvam; ao atingir a meta final, vê claramente e entende toda a verdade. Ao ver-me, ama-me, e tal amor lhe dá a plenitude da verdade. Sua vontade une-se à minha e assim não mais padecerá. Já atingiu tudo quanto desejava. Como afirmei acima, a alma separada do corpo vê minha glória nos bem-aventurados, em todos os seres, mesmo nos demônios. Já não lhe produzem sofrimento as ofensas que se cometem contra mim e que antes lhe causavam tristeza. Sente, todavia, compaixão pelos pecadores; ama-os; intercede por eles. Cessou a dor, não o amor. Foi o que se deu com meu Filho quando estava pregado na cruz; com a horrível morte, cessou a dor causada pelo seu ardente desejo de salvar a humanidade. Esse desejo santo acompanhara meu Filho desde a encarnação até o último suspiro. Ao acabar a dor, o desejo santo continuou. Se com a morte de Jesus tivesse cessado o amor que revelei por vós em Cristo, nem existiríeis mais. Fostes criados num ato de amor; se tal amor acabasse, se eu não quisesse mais vossa existência, cairíeis no nada. Meu amor vos criou e vos conserva. Meu Filho e eu somos um. Na sua morte cessou a dor, não o amor por vós. Da mesma forma os bem-aventurados continuam a ter o desejo da salvação da humanidade, mas sem sofrimento. Tendo acabado a dor no instante de sua morte, continuam a amar; inebriados no sangue do Cordeiro imaculado, revestidos de amor pelo próximo, já passaram pela porta estreita; mergulhados no sangue de Cristo, imergiram-se em mim, oceano de paz; libertados da imperfeição insatisfeita, tornaram-se perfeitos na saciedade de todos os bens.